31 de ago de 2013

Dica de sábado: Secretary



Oi, pessoal!
Espero que esse post, o contrário do de sábado passado, mostre um pouco mais dos meus sentimentos sobre o que irei escrever. E novamente: perdão pelo post meio chatinho de semana passada, eu estava um pouco doente e tristinha. Mas enfim! Como já diz o título do post de hoje, falarei sobre Secretary. 
Secretary é uma fanfic interativa que foi escrita pela Letícia Almeida – uma pessoa e escritora maravilhosa, só pra frisar – e é dividida em três partes, como se fossem temporadas. Todas as três com enredos normais, que muitas pessoas julgariam como clichês, mas com sentimentos de sobra. É o tipo de história que você para e lê. No mesmo momento, como num passe de mágica, você sente tudo aquilo que os personagens sentem; suas dores, seus medos, suas alegrias,  seus traumas, seus desesperos, suas vontades. Talvez eu seja suspeita por falar tão bem assim da história já que a acompanho desde o início. Não lembro bem exatamente quando comecei a ler a história, mas acredito que a fic devia estar sendo postada lá pelo seu terceiro ou quarto capítulo (sim!, Da primeira temporada!). Não me lembro bem o ano, minha memória é uma droga com esse tipo de coisa. Mas não importa. Eu tinha pensado em várias formas de falar sobre Secretary para vocês. Pensei em resenha. Mas não teria estruturas para resenhas algo como Secretary. E então decidi colocá-la como uma dica de sábado. 
Secretary foi, sem dúvida, a fanfiction que mais me fez sentir coisas... Esquisitas. Esquisitas do tipo de sentir o desespero dos personagens e associá-los às pessoas à minha volta. O principal da história, por exemplo, tinha tudo – menos o jeito "malvadão" (spoiler, ops) – da pessoa com quem eu li. A propósito, não me achem uma louca ou uma criancinha num corpo de dezessete por ler fanfics interativas com meu nome, é apenas uma promessa que fiz ao meu fiel personagem principal de todas as histórias e uma das poucas que eu cumpro. Sim, o meu principal das fics existe. Ou existiu. Enfim. Voltemos à fic, sim?
A Letícia tem um jeitinho único de escrever, assim como todo autor tem. Mas acho que algo em especial nela me chamou a atenção: a forma profunda de descrever detalhes e sentimentos. E voltemos ao que eu disse antes: você sente tudo o que os personagens sentem enquanto lê. Claro que tem quem não goste disso, mas isso foi o que mais me atraiu na história. Sem contar que essa garota basicamente criou um dos homens mais perfeitos do mundo das fics. E aí vocês perguntam: "mas ô Sah, cê não disse que o principal lembrava uma pessoa?" e eu lhes respondo: sim!!!! Exatamente por isso, gente. Coloco esse principal como o número 1 no meu top principais de fics. Esse foi o personagem que mais me lembrou uma pessoa importante e eu gostei disso, de verdade. Sempre disse isso para a Letícia e ela, às vezes, assim como eu, ficava boba com as semelhanças que criara. Isso é a coisa mais incrível, na minha opinião. 
Enfim. Falemos um bocado sobre o enredo da história.  A principal, como o título da fic já sugere, é a mais nova secretária do principal; um homem poderoso, rico, sedutor, misterioso e carrancudo. É o que eu disse, a história é comum, mas é um comum que, com a escrita da Letícia, chama atenção. Logo no início da história, o principal já joga seus charmes para cima da mulher. Mas, como nada é um mar de rosas, ele tinha um grande interesse na coisa toda.  Vocês não esperavam, realmente, que o chefe garanhão iria, assim, do nada, se atrair por ela, huh? O principal está basicamente cego e sedento por vingança por coisas que aconteceram em seu passado. Em seu coração só existe ódio. Ódio por tudo que lhe acontecera quando era mais novo. Ódio de seus pais. Ódio da vida que levava. Ódio pelo fato de não ter conseguido seguir a carreira que queria e acabou ali tomando conta das coisas do pai. E ele não vê ninguém mais perfeito que a principal para dar início aos seus planos. E então a história começa de verdade. E aí surgem imprevistos, mortes, podres são revelados, personagens loucos e psicóticos começam a se mostrar, os traumas de todos vem à tona. A vida da principal, que sempre fora tranquila e comum, vira de cabeça para baixo. Personagens que se mostravam totalmente fiéis, legais e carismáticos botam as asinhas para fora e mostram quem realmente são. Corações partidos, brigas, tapas, desespero, medo e sexo sempre caminham juntos, lado a lado. A Letícia conseguira dosar muito bem toda essa mistura, todas as crises dos personagens. Conseguira, també, bolar de forma impecável seus passados, medos e planos antigos. O principal, por exemplo, era um completo rebelde na adolescência. Quem diria que um dia ele conseguiria mudar isso e se apaixonar? Perdão o spoiler, mas isso todos nós já esperávamos. Secretary sempre estará no topo do meu top fanfics interativas. É a típica história que te prende e, por mais que já espere alguma coisinha dali porque está óbvio, te deixa totalmente curioso e ansioso pelo resto. A narrativa da Letícia, em si, é uma coisa incrível. E a fic é enorme! Como disse no início, existem três partes de Secretary. E todas enormes. É um tipo de história que vale a pena. Pelo menos para aqueles que gostam de detalhes e um bom romance com aquela pitada certa de suspense e ação. O que mais me divertiu na história, sem dúvidas, foram os mistérios e passados tenebrosos dos personagens. 
Deixarei a sinopse os lugares onde possam ler. Eu espero que deem uma chance para a história e gostem tanto quanto eu!

Sinopse: Ela ainda não sabia, mas o convite que recebeu mudaria sua vida para sempre. Será que, quando se ama, é possível estar ciente dos perigos que rondam a vida? Será que uma terceira pessoa fará com que ela perceba que esse jogo não é apenas uma diversão? Esconda-se, eles não estão brincando.

Vocês podem ler a fic  no Fanfic Obsession ou no tumblr.

Preciso fazer meus últimos comentários para fechar o post: Secretary foi a fic que mais me fez chorar, também. Mas não só nos momentos tristes da história e sim nos felizes também. E volto a frisar, só para vocês não esquecerem ou acharem que falei demais sobre a história e não acharam isso tudo, para mim, Secretary fora a fanfic que mais me tocou. Pode ser que não toque tanto vocês assim, mas é uma leitura que vale a pena. Pelo menos para aquelas pessoas que são amantes das fanfics, interativas ou não. É uma dica que eu ficaria feliz se todos vocês dessem uma chance e fossem tirar suas próprias conclusões. Leiam, se apaixonem (ou não) pelos personagens e depois venham aqui nos comentários  para me contar se gostaram ou não! 
Então é isso, pessoal. Até o próximo sábado! 
P.S.: Espero que no sábado que vem vocês não me achem uma louca psicótica, porque pretendo falar sobre meu grupo favorito de kpop. 
P.S.2: A capa utilizada no post é da terceira temporada da fic, a ediçãozinha ao lado foi feita pela Sarinha.
Beijinhos! 




29 de ago de 2013

[Resenha] Will & Will: um nome, um destino, de John Green e David Levithan



Título original: Will Grayson, Will Grayson
Editora: Galera Record
Ano: 2013
Páginas: 225






Em uma noite fria, numa improvável esquina de Chicago, Will Grayson encontra... Will Grayson. Os dois adolescentes dividem o mesmo nome. E, aparentemente, apenas isso os une. Mas mesmo circulando em ambientes completamente diferentes, os dois estão prestes a embarcar em um aventura de épicas proporções. O mais fabuloso musical a jamais ser apresentado nos palcos politicamente corretos do ensino médio.



Sim, estou de volta com… *pausa dramática* John Green! Oh, o inesperado choque! Quem diria, né? Mas, admitamos, a culpa não é minha se John Green é um autor fabuloso com livros fabulosos (a culpa é das estrelas). De modo que mais uma quinta-feira chegou, e você tem que lidar com mais uma resenha John Green-esca. Há coisas piores no mundo.
Tanto que o livro em questão não foi escrito apenas por John Green, mas sim em parceria com David Levithan – que, por sinal, é também um excelente autor. Na verdade, é a primeira vez que leio algo da autoria de David, mas fiquei agradavelmente surpreendida com a sua abordagem a temáticas mais pesadas como a saúde mental e a depressão, bem como com a sua construção dos personagens. Depois de pesquisar outras resenhas, deu para notar que nem todos partilham da minha opinião (houve muita gente desgostosa com a decisão de David de pegar nas regras da capitalização e atirá-las pela janela, embora eu a louve plenamente), mas mais para a frente teremos a oportunidade de discutir melhor sobre isso.

Will, você pode escolher a dedo seus amigos e pode meter o dedo no próprio nariz, mas não pode meter o dedo no nariz do seu amigo.


1. O universo

Mais uma vez, volto a frisar: John Green não é um autor do fantástico ou sobrenatural, e neste livro, David também não o é. Estamos lidando com uma realidade que conhecemos, inclusivamente com casos que já vivemos/lemos/sobre os quais ouvimos falar – em particular, casos de depressão, questões sobre a orientação sexual, adolescentes revoltados, adolescentes fabulosos, amizades colocadas sobre pressão… enfim, temos à nossa frente todo um mundo que conhecemos, mas que nem sempre entendemos. Tal como em Cidades de Papel, o livro circula em redor de adolescentes americanos (dessa vez, de Chicago, outro local onde John morou) cuja vida se encontra imensamente dificultada por frequentarem o ensino médio. Quem não simpatiza com eles, né?
Entretanto, de fato acontece pelo menos uma coisa fantástica no decurso do enredo: Will Grayson encontra-se com, nada mais, nada menos… *nova pausa dramática* Will Grayson! Imagine-se a si mesmo, apenas metido na sua vida, tendo uma noite que parecia não ter como piorar, e dando então de caras com seu xará. Homônimo, se quisermos ser chiques. É realmente algo surpreendente, mas totalmente plausível de acontecer – e que, provavelmente, aconteceu – numa realidade como a nossa.

Pontuação: 


2. A escrita e o enredo

Uma das características mais interessantes de Will & Will é a co-autoria, que implicou não só a existência de dois autores, como também de dois narradores diferentes. Pessoalmente, acho que uma das coisas mais difíceis deve ser escrever em parceria, porque tem que haver compromisso, comunicação, confiança e sinceridade; tudo isso, enquanto você está tentando traduzir as imagens que estão dentro do seu cérebro para um pedaço de papel. Sério, se você conseguir fazer uma boa parceria, coesa e dinâmica, com outra pessoa, vocês os dois são dignos de se desposarem (imaginem só as crianças geniais que esses dois autores teriam)! Mas John e David ultrapassaram bem esse obstáculo, criando cada um o seu próprio Will, bem como o contexto em que ele se insere, e ainda dividindo entre si os capítulos – John escreve os capítulos ímpares e David, os pares. Isso deu uma dualidade à narração do livro que deixa clara a diferença entre os dois Wills, suas vidas e suas personalidades, sem, no entanto, permitir que a coesão da obra se perca. No geral, é uma obra de linguagem direta e fácil de interpretar – como o próprio John já afirmou, ideal para ser lida em voz alta. Só tenho que aplaudir.
Contudo – e como já disse lá em cima –, houve muita gente desagradada com a escolha feita por David de deixar seu will escrever tudo em letras minúsculas. tudo mesmo. bem assim. até títulos de seriados, e livros, e coisas do gênero. Acharam que retirava a formalidade ao livro (e isso é necessariamente mau?), ou simplesmente, por não estarem acostumados, acharam estranho. Olha gente, eu já li José Saramago para a escola e, acreditem, o que David fez não tem de estranho/pouco ortodoxo/completa-e-originalmente-imprecedido. A língua não só falada, mas também escrita, só tem interesse enquanto pudermos reinventá-la – e isso sempre implica quebrar algumas regras tomadas como sagradas. Seja porque o seu will se vê como uma pessoa deprimida e indigna do Uso Correto da Capitalização, seja porque esse tipo de escrita se aproxima mais à linguagem cibernáutica (que assume um importante destaque na vida de will), o certo é que existem muitas razões que dão sentido ao estilo de escrita de David. Acreditem que, para uma pessoa que já leu livros praticamente sem pontuação, isso não é nada – e também não causa qualquer perda à obra. Reinventar nossas formas de contar histórias é essencial para o progresso da literatura.

Quanto ao enredo, posso dizer que o achei intrigante, mas não necessariamente brilhante. Você fica medianamente interessado no que virá em seguida, mas não há grandes momentos de tensão enigmática – tirando, talvez, no meio e no final. Na verdade, o livro demora um pouco para ganhar ritmo, sendo que o início se foca sobretudo em deixar você entender como é a vida desses dois garotos. O ponto chave do enredo, porém, só surge perto do capítulo sete, quando os dois Wills finalmente se encontram. A partir daí, o ritmo acelera e você se sente cada vez mais preso à história, perguntando-se como os personagens lidarão com a situação. No fundo, é um enredo que gira em redor de uns poucos momentos chave, sendo que as principais transformações são muito mais mudanças graduais que reviravoltas impressionantes. Contudo, temos que admitir que, até aí, a obra é fiel à realidade retratada. Tal vida, tal livro.

“— Você acredita em revelações? — pergunta. Recomeçamos a andar.
— Hã, pode traduzir a pergunta?
— Tipo, você acredita que a atitude das pessoas possa mudar? Um dia você acorda e percebe alguma coisa de uma forma como nunca viu antes, e bum, uma revelação. Alguma coisa está diferente para sempre. Você acredita nisso?
— Não — digo. — Não acredito que nada aconteça de repente. […] Quero dizer, qualquer coisa que aconteça de repente provavelmente vai desacontecer de repente, sabe?”

Pontuação: 


3. Os personagens

Com dois autores criando um mesmo livro, não era de esperar menos do que uma multiplicidade de personagens – e é exatamente isso que encontramos em Will & Will. Começando pelos dois protagonistas, vemos duas pessoas que concordam plenamente em como a melhor forma de levar a vida é não se importar muito com nada. Ambos os Wills estão desiludidos e têm uma visão um pouco derrotista da vida logo no início da narrativa, mas will (o de David), por ser clinicamente depressivo, é o que terá mais dificuldade em abandonar essa perspetiva. Will (o de John) é mais animado, tem mais amigos (embora não tantos assim e não propriamente “escolhidos a dedo”), tem uma família estável e compreensiva. Além disso, não tem que lidar com o fato de ser secretamente gay, como o segundo will – mas tem sim que lidar com Tiny Cooper, seu melhor amigo enorme, homossexual e que muda de amor como quem muda de camisa. E pode apostar que Tiny Cooper muda ambos com uma frequência impensável.

“Tiny Cooper não é a pessoa mais gay do mundo, tampouco é a maior pessoa do mundo, mas acredito que ele possa ser a maior pessoa do mundo que é muito, muito gay, e também a pessoa mais gay do mundo que é muito, muito grande.”

Depois temos as garotas: Jane Turner, uma garota extremamente inteligente e com um pretensioso gosto musical, que Will vem a conhecer por Tiny, e que o fará entender melhor a vida e as relações através de analogias mega intelectuais; e Maura, gótica e melhor (por ser única) amiga de will, interessada em passar a ser algo mais, mas com quem ele nunca é exatamente sincero (porque se fosse, ela já saberia que lhe falta a única coisa que lhe poderia dar uma chance com will, né *cofcof*). Depois desses, temos ainda mais alguns personagens, a maioria adolescente – tirando os pais dos dois Wills –, com quem ambos os protagonistas interagem, sobretudo no ambiente escolar.

“maura não está exatamente à minha espera antes da escola, mas eu sei, e ela sabe, que vou procurar por ela onde estiver. em geral recorremos a isso para que possamos dar algumas risadas ou algo assim antes de irmos embora. é como aquelas pessoas que se tornam amigas na prisão, embora nunca fossem nem mesmo se falar se não estivessem ali. é assim que eu e maura somos, acho.”

No geral, todos os personagens são realistas: há coisas em cada um deles com as quais você se irá identificar e outras das quais você não irá gostar. Sinceramente, achei muito difícil simplesmente me atirar de cabeça e amar qualquer um dos personagens (embora Tiny me tenha deixado muito tentada), porque você está consciente dos defeitos de cada um deles ao longo de toda a obra. Há até momentos de tensão em que você não sabe quem está certo ou errado, visto que ambos os lados têm seus motivos para se sentirem desiludidos. Isso se torna cada vez mais claro à medida que o livro avança, deixando o leitor com a impressão de que, nessa história, tal como na vida real, a verdade é algo extremamente complexo e a culpa não é (das estrelas) apenas de uma pessoa, mas de todos os envolvidos.

Pontuação: 


4. A temática

Muita gente provavelmente lhe dirá que esse é um livro de temática gay. Isso é mentira. Will & Will fala sobre homossexualidade, tem personagens homossexuais, relata relações homossexuais, mas jamais se arroga a afirmar ser um livro cujo objetivo é lutar pelos direitos LGTB. Will & Will é um livro sobre amor. E, dentro do amor, encontramos tanto relações amorosas homossexuais como heterossexuais – mas encontramos também relações familiares, relações de amizade e a relação que temos com nossa autoestima. A obra se debruça sobre todos esses tipos de amor, explorando como e porque nos é tão difícil assumir que amamos não só a pessoa por quem estamos apaixonados, como também nossos pais, amigos e até nós mesmos. Ela deixa bem claro que todas essas vertentes da nossa vida se completam, retirando o amor romântico do pedestal em que, durante anos e anos, nossa sociedade e cultura o têm colocado. É essa importância verdadeiramente completa e complexa que é dada ao amor que, para mim, faz o livro valer tanto a pena. Uma reflexão importante sobre a forma como nós próprios lidamos connosco e com as pessoas que temos à nossa volta.

“tiny: eu sei que não posso mudar seu pai, sua mãe ou seu passado. mas sabe o que posso fazer?
sua outra mão sobe pela minha perna.
eu: o quê?
tiny: outra coisa. é isso que posso lhe dar. outra coisa.”

Pontuação: 


5. Tópico surpresa: A homossexualidade

Bem, suponho que o “tópico surpresa” de hoje não seja tão surpreendente assim. Você pode até perguntar: “ué, Sofia, você não acabou de dizer que Will & Will não é sobre homossexualidade?” Sim, meu caro leitor, você tem toda a razão. A questão é que vivemos num mundo em que a homossexualidade é ainda fonte de debate e discussão, de modo que qualquer livro que lide com ela vai ser julgado enquanto um “livro sobre homossexualidade”. Mas o bom de Will & Will é que ele não afirma ser a fonte de explicação de todas as coisas homossexuais. De todo! Os autores deixaram implícito, mas bem claro, que retratavam apenas uma pequena porção de toda a incrível variedade de homossexuais que existem. Assim como de heterossexuais. A verdade, meus caros, é que qualquer pessoa é um mundo em si mesma; cada um de nós é intrinsecamente complexo e contraditório e uma riqueza inimitável – independentemente da sua sexualidade. Will & Will retrata isso mesmo, através de um Tiny Cooper, que incorpora muitas das características que rotulamos como “gays” – ele gosta de musicais, tem uma personalidade espampanante e é simplesmente fabuloso –, e outras que nem por isso – ele joga futebol americano, gente, isso é tipo… o topo da masculinidade lá –; mas também através de um will cuja personalidade engloba a homossexualidade, e não o oposto, e de outros personagens como Gideon, Gary, Nick, etc.

O que acontece nesta obra é que o personagem homossexual é libertado, de uma vez por todas, de todos esses preconceitos e preocupações com estereótipos. Oh, Tiny Cooper parece ser o típico melhor amigo gay? Pedimos desculpa pelo incômodo, mas ele não vai deixar de gostar de musicais só porque isso é “tipicamente gay”. Quem é você para dizer que isso o torna num estereótipo? Ele é um personagem repleto de nuances sutis, de dilemas interiores, de motivações e desilusões. Não é certamente gostar de musicais que lhe vai retirar toda essa riqueza. E will? will não passa seus dias obcecado com ser ou deixar de ser homossexual – apesar de ser obcecado com sua paixão, Isaac –, simplesmente é homossexual e fim. Os autores não começam o texto do gênero: “então, um desses Wills é hetero e o outro é gay, achamos importante que você saiba isso desde já”. Não! Isso não tem uma influência particular na personalidade do personagem – faz parte de sua personalidade, mas não a domina ou define. 

E gente, com uma obra que não coloca a homossexualidade no centro, como que dizendo “oh, isto é um tema extremamente especial que temos que tratar com todo o cuidado e carinho e atenção”, só podemos ganhar. A verdade é que a homossexualidade é banalizada nesse livro. E isso é tudo aquilo de que a homossexualidade precisa nesse momento: de ser tratada como uma coisa normal. Porque é isso que ela é.

Pontuação: 


Conclusão

Eu li Will & Will de um fôlego só, numa maratona de seis horas que discorreu suavemente. O livro em si não é inacreditável ou puramente genial… mas é um livro bom. É um livro direto e simples de ler, o que torna o processo de leitura gostoso e fácil. Você provavelmente vai acabar por se identificar com os personagens, por sentir raiva quando eles erram, por festejar quando eles se acertam, e por adorar quando… hmm, certas coisas acontecem. Não vai ser o melhor livro da sua vida – ou quem sabe, talvez o seja para si – mas conterá lições e reflexões bem conseguidas, desde que você esteja disposto a verdadeiramente escutar o que os personagens têm para dizer. E, acredite, esses personagens têm bastante para dizer.

Um livro que decididamente valeu as seis horas que investi nele – e não deixe que te façam pensar o contrário, apenas porque a co-autoria dificultou a vida a algumas pessoas. A ideia do livro realmente é ter dois narradores de personalidades bem diferentes, mas, garanto, ambos os autores se esforçaram para que isso nunca custasse qualquer tipo de coesão e coerência à história. Pessoalmente, acho que eles fizeram um trabalho de louvar.

“é por isso que chamamos as pessoas de ex, acho — porque os caminhos que se cruzam no meio acabam se separando no fim. é muito fácil ver esse x como uma anulação. mas não é, porque não tem como anular uma coisa assim. o x é um diagrama de dois caminhos.”



Pontuação final: